Economistas alertam que possível recessão na Alemanha pode afetar Portugal

Os economistas contactados pela agência Lusa consideram que existem sinais de que a economia alemã está a "parar", o que pode afetar a zona euro e Portugal, e alertam para a inversão dos princípios básicos das finanças. “Há de facto um risco...

Economistas alertam que possível recessão na Alemanha pode afetar Portugal
Os economistas contactados pela agência Lusa consideram que existem sinais de que a economia alemã está a "parar", o que pode afetar a zona euro e Portugal, e alertam para a inversão dos princípios básicos das finanças. “Há de facto um risco de recessão na Alemanha. E se for severa propagar-se-á quase de certeza à zona euro e a Portugal”, disse à Lusa João Borges de Assunção, professor da Universidade Católica.    O Bundesbank, banco central alemão, alertou esta semana que a economia alemã, a maior da Europa, pode estar a recuar durante os meses de verão, depois da contração já registada no segundo trimestre, aumentando a possibilidade de entrar em recessão. João Borges de Assunção considera que “a Alemanha tem alguma margem de manobra orçamental e pode estar disponível para fazer mais investimento público no próximo ano”, mas acrescenta que a preocupação com as dívidas italiana, grega e portuguesa, assim como a incerteza política em Espanha, “recomenda prudência na gestão orçamental alemã”. No mesmo sentido, Pedro Lino, economista e administrador da Dif Broker e da Optimize, disse à Lusa que “existem sinais claros que o principal motor da economia europeia [a alemã] está a parar, com os investidores a esperarem taxas de juro zero ou negativas pelo menos na próxima década”. No entender do economista, seria a altura certa para a zona euro lançar um programa de infraestruturas, “aproveitando a necessidade de implementação de novas tecnologias, como o 5G [quinta geração] que irá abrir portas para um novo mundo de aplicações”. “O financiamento está a níveis nunca vistos e a única forma de aproveitar é através do investimento produtivo, ou seja, que gera novas oportunidades de crescimento”, referiu Pedro Lino. Esta semana a emissão de obrigações alemãs a 30 anos com um juro negativo fez manchetes em todo o mundo, depois da procura ter atingido menos de metade do objetivo. Na prática, o juro negativo significa que o Governo alemão está a ser pago para emprestar a 30 anos. “Penso que ninguém pode ficar muito confortável ao verificar que princípios básicos das finanças estão a ser desafiados diariamente”, afirmou à Lusa Filipe Garcia, economista da IMF – Informação de Mercados Financeiros. O economista recordou que há cinco anos que as obrigações alemãs a dois anos estão com taxas negativas. Por isso, “já não se pode dizer que estamos perante apenas uma situação transitória”, defendeu. “É um pouco como se a lei da gravidade deixasse de funcionar de repente e ficássemos sem saber como agir porque toda uma tecnologia assente nos efeitos da gravidade (praticamente toda a que existe) deixa de funcionar”, frisou Filipe Garcia, acrescentando que, “em finanças, ter as taxas de juro negativas de forma estrutural obriga a repensar praticamente tudo”. O economista salientou ainda que “ter as taxas de juro de longo prazo muito baixas pode implicar receios de uma recessão” e explicou que as taxas de juro estão em “níveis incríveis” por duas razões: por um lado, pelo excesso de liquidez no mercado financeiro e falta de alternativas para investimento, e, por outro, pela expectativa de mais estímulos monetários que poderão ajudar a subir ainda mais os preços das obrigações. “Nesse sentido, é também um motivo para estar preocupado”, concluiu. Na quinta-feira foram divulgadas as atas da última reunião de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), em 25 de julho, que revelaram que a instituição debateu um pacote de medidas para estimular a economia, ponderando a combinação de descidas das taxas de juro e a compra de ativos. Pedro Lino antecipou à Lusa que “o BCE deverá apresentar em setembro mais um plano de apoio, nomeadamente garantindo que os juros permanecem baixos e dando ainda mais liquidez à economia da zona euro”. Contudo, o economista alertou que só haverá “resultados expressivos no crescimento económico se ambas as políticas orçamental e monetária estiverem alinhadas, caso contrário o BCE permanecerá o bombeiro de serviço”. Relativamente à economia norte-americana, João Borges de Assunção afirmou que “os riscos de recessão nos Estados Unidos parecem ser baixos, por enquanto”, apesar de considerar que o facto de as taxas de juro nos prazos mais longos terem baixado muito e terem estado pontualmente abaixo das taxas nos prazos mais curtos, “é um sinal negativo e preocupante”. O professor da Católica considera que “a governação económica mundial ficou 'decapitada' com o comportamento do atual Presidente norte-americano”, o que torna a resolução dos problemas económicos mundiais “mais complexa”.