“Ser cardeal é tão pesado como ser operário ou refugiado”, Tolentino Mendonça

O arquivista e bibliotecário do Vaticano, Tolentino Mendonça, hoje investido cardeal, considera que “a vida de um cardeal é pesada” como a vida de um operário, de um desempregado ou de um refugiado. “A vida vai-nos dando, pela mão de Deus,...

“Ser cardeal é tão pesado como ser operário ou refugiado”, Tolentino Mendonça
O arquivista e bibliotecário do Vaticano, Tolentino Mendonça, hoje investido cardeal, considera que “a vida de um cardeal é pesada” como a vida de um operário, de um desempregado ou de um refugiado. “A vida vai-nos dando, pela mão de Deus, os caminhos, mais do que pesos, porque a vida de um cardeal é pesada, mas a vida de um pai de família também é, a vida de um operário, a vida de um desempregado, a vida de um homem sobre a terra, a vida de um refugiado, a vida de alguém que constrói a sociedade”, afirmou aos jornalistas Tolentino Mendonça. O poeta e estudioso da Bíblia falava depois de ser investido cardeal pelo papa Francisco na Basílica de São Pedro e antes da de sessão de cumprimentos, no Palácio Apostólico, no Vaticano. “A visita é difícil para todos, também será para um cardeal, mas também é bela, também é entusiasmante e é nisso que eu penso. Partilho a humanidade dos meus irmãos e faço com eles um caminho crente, um caminho de fé”, declarou. Tolentino Mendonça, de 53 anos, tornou-se no sexto cardeal português deste século e no 46.º da História. Na cerimónia foi anunciado que a igreja de Roma que lhe era atribuída era a de São Jerónimo da Caridade, mas Tolentino Mendonça corrigiu nesta ocasião que se tratava da Igreja de São Domingos. Questionado sobre se o facto de ser cardeal pode condicionar a liberdade criativa, Tolentino Mendonça lembrou as palavras do líder da Igreja Católica na sacristia da basílica, onde se dirigiu para cumprimentar cada um dos 13 cardeais que iria criar. “Quando ele se abeirou de mim, eu disse-lhe, baixinho: ‘santo padre, o que é que me fez?’”, começou por dizer Tolentino Mendonça, adiantando que Francisco se riu e disse: “Olha, a ti eu digo aquilo que um poeta disse, ‘tu és a poesia’”. Tolentino Mendonça referiu que são palavras que guarda no coração: “No fundo, para dizer-me uma coisa essencial. A Igreja conta com uma determinada sensibilidade, uma atenção a um determinado campo humano que é o campo da cultura, das artes, da estética, e o santo padre considera que esse campo é também importante para a missão da Igreja e para aquilo que ela hoje é chamada a ser no mundo contemporâneo”. O mais recente cardeal trazia ao peito uma cruz que foi abençoada pelos bispos eméritos do Funchal – Teodoro Faria e o seu sucessor António Carrilho – e o atual prelado da diocese, Nuno Brás, que foi colega de Tolentino Mendonça no seminário. “Pedi-lhes que abençoassem a cruz e trago-a hoje em sinal também da história que me trouxe até aqui”, acrescentou. Sobre o momento da investidura como cardeal, no altar da basílica, o cardeal português afirmou que sentiu “a responsabilidade de cada passo” e que “é uma coisa maior” do que si próprio. “Evidentemente, isso são as experiências-chave da nossa vida. Em determinados momentos, todos, crentes, laicos, padres, cardeais, pais de família, sentimos que a vida é maior e estes foram passos conscientes, não foram uns passos quaisquer”, adiantou. Natural de Machico, Madeira, o futuro cardeal entrou no seminário aos 11 anos. Doutorado em Teologia Bíblica e antigo vice-reitor da UCP, é um nome de destaque da poesia portuguesa contemporânea, tendo já recebido vários prémios.